Numa dessas tardes chuvosas de janeiro, coloquei o rosto pra fora da janela para observar a chuva. Respirei fundo, como um suspiro de cansaço causado pelos estresses do dia a dia, mas de repente um aroma invadiu meu nariz e aí, como que num estalar de dedos, eu voltei pra minha infância. Era cheiro de bolinho de chuva, se misturando com o cheiro da própria chuva, assim, meio abafado por conta do calor. Eu tinha nove anos e brincava no quintal da minha avó, na parte coberta, enquanto via a chuva caindo no corredor que não tinha telhado. E por esse mesmo corredor, um cheiro passeava até encontrar minhas narinas. Aquele cheiro de fritura doce, da massa açucarada entrando em contato com o óleo quente. Aquele cheiro que se espalha pelo ar e abraça quem estiver por perto. 

 

Ali, com os olhos fechados, e rosto para fora da janela, sentindo os leves respingos das gotas de chuva nas bochechas, fiquei lembrando de cada detalhe daquelas tardes com minha avó. 

 

O que eu senti naquele momento foi o mesmo sentimento de nostalgia que Proust descreve em sua obra Em Busca do Tempo Perdido, quando mergulha uma madeleine no chá e, ao sentir o aroma, se recorda de sua infância. Ele escreveu sobre o instante em que o passado retorna sem aviso, completo, vivo, como se nunca tivesse ido embora. 

 

 

Fazia já muitos anos que, de Combray, tudo que não fosse o teatro e o drama do meu deitar não existia mais para mim, quando num dia de inverno, chegando eu em casa, minha mãe, vendo-me com frio, propôs que tomasse, contra meus hábitos, um pouco de chá. A princípio recusei e, nem sei bem porque, acabei aceitando. Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleines [...].

 

Hoje sabemos por que isso acontece. O olfato tem um atalho direto para áreas do cérebro ligadas à emoção e à memória, um caminho muito mais curto que de qualquer outra percepção sensorial. Por isso, memórias involuntárias podem ser desencadeadas pelos odores. É como se os odores ficassem “presos” às memórias e, quando sentimos um odor parecido àquele que já sentimos antes, a memória surge como uma onda gigante, invadindo nossa mente e nos puxando de volta para aquele momento.

 

Os cheiros têm essa habilidade curiosa de nos lembrar de pessoas, de lugares e também de antigas versões de nós mesmos. Eles podem nos lembrar de sensações que sentíamos, mesmo sem nos lembrar da situação em si. No fim das contas, o olfato nos lembra que a memória não é um arquivo, mas um território vivo. A memória muda, evapora e retorna, e, às vezes, tudo o que precisamos para atravessar anos inteiros é um cheiro que passa rápido demais para ser segurado, mas que é forte o suficiente para nos lembrar que algumas partes de nós nunca foram embora.